Cultura

ATRÁS DA CORTINA DO CIRCO DO COLISEU DO PORTO

O Circo voltou à emblemática sala de espetáculos do Porto durante o mês de dezembro. Com os mais variados artistas e uma arena montada a rigor, o JUP foi visitar os bastidores de uma das maiores produções do Coliseu do Porto. Por Carolina Nogueira.

O espetáculo, inteiramente produzido pelo Coliseu, contou com artistas como palhaços, trapezistas, contorcionistas, bailarinas e cantoras, acrobatas em trampolins e ainda, como novidade este ano, um número de Danças Urbanas.

Por detrás de um grande evento como este, está uma equipa que assegura que tudo corre bem. Os bastidores do Circo do Coliseu estendem-se por todo o edifício. No piso -1, estão os camarins da Momentum Crew, a grande novidade do circo este ano. No Piso 0, temos o apresentador, Emílio Gomes; o palhaço de serviço, David Marianni, pertencente à família de palhaços mais antiga do país; e Sheyen Caroli, a contorcionista.

No primeiro piso, encontram-se a Adrenaline Troupe, um grupo de acrobatas em trampolim oriundos da Ucrânia; e os Duo eMotion, uma dupla francesa de renome, tendo já participado no Cirque de Solei. Finalmente, no segundo piso estão as Majorettes, bailarinas portuguesas; e as Pasternack Sisters, uma dupla de gémeas russas com um número aéreo em aro grego.

A preparação do Circo

Um circo desta dimensão começa-se logo a preparar no início do ano. O próprio presidente do Coliseu faz a escolha dos números, de acordo com as questões técnicas que o Coliseu pode suportar e de acordo com o orçamento que está disponível. Na pista, todos os dias e, muitas vezes, quatro vezes por dia, estão 31 artistas, juntamente com o mestre de cerimónias.

Depois da escolha dos números, abre-se caminho para as questões burocráticas. Começam-se a preparar as contratualizações dos artistas, tratam-se das viagens, vistos e da encomendação do material necessário.

O passo seguinte é construir o alinhamento do espetáculo, com a preocupação de interligar os números através de um fio condutor.

O que se passa nos bastidores

Nos bastidores, reina a música e a boa disposição. Quando questionada acerca do processo de preparação de cada artista, Graça Barreto, que trabalha na produção e gestão de eventos do Coliseu, revela que isso parte muito de cada um. Sheyen Caroli, a contorcionista, precisa de uma hora de aquecimento antes do espetáculo. Quando chegam a ter quatro sessões por dia, a primeira sessão marca logo o ritmo para o resto.

Inês Cardoso, pertencente às Majorettes, revela que é preciso chegar aproximadamente com uma hora de antecedência para tratar da maquilhagem e para aquecer o suficiente. “Principalmente nós, Majorettes, como abrimos a sessão do circo, precisamos de tempo para preparar o corpo para dançar.”.

Para Inês, o primeiro passo para se preparar para o espetáculo é colocar música, seguindo-se a maquilhagem. Posteriormente, aquecem para evitar alguma possível lesão. À data da conversa com o JUP, pouco antes de mais uma sessão, confessa que, “nesta última semana já todos sentimos o corpo bastante cansado e já começamos a sentir a exaustão física depois de tantos espetáculos.”.

Quando questionada acerca da organização do Circo, a Majorette revela que a mesma tem sido “incansável”. “São extremamente atenciosos e cuidadosos com todos os artistas e, como tal, estamos-lhes muito agradecidos”.

Para a dupla Duo eMotion, a principal preparação antes de subir ao palco é um bom aquecimento. Costumam chegar também uma hora antes do espetáculo, para começar com a maquilhagem. Morgane, a metade feminina da dupla, confessa que aquece só durante o intervalo, já que o número de trapézio é o que fecha o circo.

Os bastidores do Circo do Coliseu não se cingem só aos camarins. A música ouve-se pelos labirínticos corredores da parte detrás do edifício e, ao chegar ao palco, vêem-se os artistas a aquecer. Os trampolins estão montados para entrarem em cena mais tarde e, enquanto o público se instala, os Adrenaline Troupe aquecem. Embora reine a concentração máxima, há sempre espaço para conversas amigáveis e para o convívio que se destaca por ser multicultural. Num espetáculo onde a nacionalidade não é critério, há espaço para todos.

Contudo, Graça revela que é sempre um desafio trabalhar com artistas tão diferentes. As Pasternack Sisters, por exemplo, só se conseguem expressar em russo. Apesar dos obstáculos que a barreira linguística possa criar, com a ajuda do Google Tradutor ou de um dos Ucranianos da Adrenaline Troupe, todos se conseguem entender.

A novidade

Como grande novidade este ano, o Circo apresenta a Momentum Crew. Liderada por Max Oliveira, a companhia que foi campeã mundial de bboying está este ano a dançar na arena do Coliseu. A escolha de inclusão deste número prende-se pela tentativa de tentar criar um circo mais contemporâneo. As reações à atuação dos Momentum Crew têm sido muito boas e considera-se que o Circo está a dar oportunidade e palco a novas disciplinas.

Fotografia por António Pedrosa.
Fotografia por António Pedrosa.

O Circo conta já com aproximadamente 100 mil espectadores, mas, apesar do sucesso, há sempre espaço para melhorias. Este ano o Circo equipou-se com mais assistentes de sala, têm carrinhos com pipocas e doces nos corredores e não apenas no bar, apostam sempre nas contratações para a criação de uma boa companhia circense e a principal preocupação é agradar ao público, tentando fazer com que este sinta que é uma experiência memorável, à qual vale a pena retornar todos os anos.

Distinguindo-se por ter proibido o uso de animais em pista desde 2015, o Circo do Coliseu considera que este facto resultou num impacto muito positivo junto da comunidade. O feedback recebido é elogioso e muitas associações de animais recomendam o Circo por esse motivo. “As mesmas associações de proteção de animais que há uns anos se manifestavam à porta, agora compram bilhetes para vir ao circo”, revela Graça Barreto.

Quando o público já está todo sentado, todos os artistas estão atrás do palco. Uns a aquecerem, outros a conviverem. As cortinas abrem-se e as Majorettes tomam os seus lugares.

Com tantas pessoas envolvidas e com tanto trabalho investido, fica a recompensa que vem na forma de satisfação do público, medida nos risos que se ouvem por detrás da cortina. Depois de um ano, vários meses, muitos dias e inúmeras horas de intensos preparativos, o Circo arranca para mais uma sessão de sala cheia.

Este artigo é da autoria de Carolina Nogueira.