Ciência e Saúde

INTELIGÊNCIA ARTIFICAL: UMA QUESTÃO ALÉM DA TECNOLOGIA

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto acolheu uma conferência internacional sobre inteligência artificial. A aplicação da tecnologia a outras áreas como a cultura e a arte justificou o local do evento que fez da filosofia recurso para sessões multidisciplinares.

O objetivo foi o de juntar um grupo multidisciplinar numa discussão sobre as consequências dos desenvolvimentos da inteligência artificial. “Dado o amplo impacto que esta tecnologia terá em todos os aspetos da nossa vida, é urgente pensar e discutir todos os aspetos científicos, políticos, éticos, legais e filosóficos que a rodeiam”, explica fonte da organização. O evento foi organizado pela Associação Episteme & Logos (AEL), com o apoio do Grupo da Mente, Linguagem e Ação (MLAG) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP).

Em declarações ao JUP, Diana Neiva, presidente da AEL, afirmou que a associação “tem como objetivo juntar pessoas de diferentes backgrounds teóricos”. Prova disso foi a escolha da Faculdade de Letras como local de uma conferência mais virada para a tecnologia: “É um desafio intelectual para as pessoas. Enquanto associação que quer mesmo uma multidisciplinaridade, queremos juntar as pessoas em meios que não lhes são familiares”, explicou.

“Um hacker poderia entrar no programa e controlar os movimentos, fazendo a pessoa agir contra a sua vontade”

Apesar da maior componente ser a filosófica, a multidisciplinaridade do evento foi aparente logo no primeiro dia. A conferência começou com Caterina Moruzzi, estudante de doutoramento na Universidade de Nottingham, que abordou a questão da criatividade artificial, explorando a possibilidade de programas computacionais serem intencionalmente criativos.

De um ponto de vista mais futurista, Aníbal Astobiza, investigador colaborador no Instituto de Filosofia em Madrid, apresentou um trabalho desenvolvido em conjunto com Ricardo Ferrer e Txetxu Ausín sobre Interfaces Cérebro-Computador. Em conversa com o JUP, expôs os principais perigos que esta tecnologia cria, nomeadamente o “brain-hacking“: “Se imaginarmos que seria possível aceder ao software que controla os membros artificiais de uma pessoa, um hacker poderia entrar no programa e controlar os movimentos, fazendo a pessoa agir contra a sua vontade”, explica.

Ser capaz de esquecer certos factos da nossa vida contribuem para o bem-estar

As palestras da parte da parte começaram com Björn Lundgren, investigador do The Royal Institute of Technology, que apresentou o seu trabalho em resposta a uma apresentação numa conferência TED por Tom Gruber. Gruber explicou a sua visão de como desenvolvimentos em inteligência artificial poderiam melhorar a nossa memória e contribuir para uma melhor qualidade de vida. Björn apresentou outra perspetiva: opôs-se não à visão de que esta tecnologia seria possível no futuro, mas de que seria necessária. Na sua visão, ser capaz de esquecer certos factos da nossa vida contribuem para o bem-estar de formas que normalmente não consideramos.

Sem quebra de ritmo, as exposições seguintes cobriram os tópicos de gestão (Odile Bellenguez, investigadora no IMT Atlantique), aborrecimento transhumanista (Alexandra Robinson, da Universidade de Kent), e a possibilidade de os computadores possuírem mentes (Sangeetha Sreedevikuttyamma, da Universidade de Oxford).

Para o final do primeiro dia, o tema dominante foi o estatuto artístico da inteligência artificial. Nicole Hal, da Ecole Normale Supérieure, explorou a questão de como vai evoluir a ideia do que é ser “humano”, quando a inteligência artificial for avançada o suficiente que tornará a metáfora entre sistemas artificiais e biológicos mais credível. Num tema relacionado, Rui Penha e Miguel Carvalhais, da Faculdade de Engenharia e da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto, respetivamente, debruçaram-se sobre a capacidade humana de compreender arte criada por sistemas artificiais, tendo em conta o quão diferente seriam as experiências cognitivas em questão.

O “keynote speaker” do primeiro dia foi Luís Moniz Pereira, professor de Ciência Computacional na Universidade Nova de Lisboa. A sua palestra percorreu os tópicos estudados no seu livro, “Programming Machine Ethics”, bem como a motivação científica e filosófica por detrás do trabalho, resultados teóricos e experimentais e a direção atual da investigação. Expôs também o importância que a ética tem neste campo da tecnologia e como será idealmente aplicada.

Foto: Sofia Silva
Foto: Sofia Silva

O segundo dia das conferências abriu com Alexander Lazarov, professor na Universidade de Sófia, que se debruçou sobre a pergunta “Será que criamos inteligência artificial para que se assemelhe ao raciocínio humano?”. Da parte da manhã ainda falou Zong Ning, da Universidade de Tóquio, com o tema “Representar o mundo com a Navalha de Occam: defesa da teleosemântica informativa num paradigma de processamento preditivo”.

O JUP esteve presente nas palestras da parte da tarde, que começaram com Isabel Neves, da Universidade de Coimbra e da Universidade Estadual da Pensilvânia. O assunto foi o aparecimento da inteligência artificial aplicada às áreas da arquitetura e do design. Foi ainda abordado o panorama nacional da aplicação da inteligência artificial de 1950 até ao final da década de 70, numa conferência gravada e reproduzida no anfiteatro.

O segundo orador da tarde foi Kamil Lemanek, da Universidade de Varsóvia, numa apresentação em que se refletiu sobre a interação de sistemas com inteligência artificial e estímulos externos. Os estímulos são imprevisíveis e, por isso, são precisas diretivas que permitem que os sistemas reajam sem haver um código de conduta pré-definido, através da aplicação de outras informações.

“A imaginação é uma função da memória usada para prever futuras possibilidades”

Laila Yousef Sandoval, do Endicott College, expôs em videoconferência uma análise que tem desenvolvido em relação aos ataques americanos com recurso a drones. A investigadora e professora de Ética pegou na situação do ponto de vista das vítimas dos bombardeamentos, de forma a entender como as pessoas afetadas reagem perante ataques de máquinas autónomas. Yousef deixou clara a ideia de que a inteligência artificial e os drones podem ser uma boa tecnologia para o futuro. “Os drones não têm vontade política nem atacam porque querem. A utilização dos drones, o seu fim… está dependente de quem os controla”, lembrou.

Na sequência da palestra de Caterina Moruzzi no primeiro dia, René Lars Mogensen apresentou uma representação formal do que pode ser a criatividade computacional. O professor do Conservatório Real de Birmingham apresentou uma função matemática que permite atribuir a máquinas a capacidade de criar música original. Lars Mogensen afirmou que “a imaginação é uma função da memória usada para prever futuras possibilidades”.

A intervenção do professor de música foi a que mais debate gerou, com várias pessoas do público a questionar a capacidade de atribuir imaginação a sistemas robóticos. O compositor dinamarquês sublinhou que a imaginação computacional é diferente da imaginação humana e que a tentativa de criar criatividade artificial passa por “permitir que máquinas e compositor se entreajudem.”

Foto: Sofia Silva
Eugénio Oliveira, professor da FEUP. Foto: Sofia Silva

A última palestra do dia foi de um dos convidados principais, Eugénio Oliveira, professor catedrático da Faculdade de Engenharia da Faculdade do Porto, que falou sobre as atuais e futuras realizações da inteligência artificial e o seu impacto social.

Em declarações ao JUP, Eugénio Oliveira realçou a importância da existência de conferências que juntem especialistas de várias áreas: “Quer a interdisciplinaridade, quer a multidisciplinaridade são muito úteis para se ter uma paisagem mais abrangente sobre aquilo que cada uma das disciplinas propõem para resolver problemas atuais”. O professor acrescentou que é preciso ter cuidado ao refletir sobre a inteligência artificial. “Muitas vezes é impossível fazer análises muito profundas porque estes temas saíram dos espaços confinados aos especialistas”, explicou. Por essa razão, “temos de estar preparados para fazer análises a um nível mais abstrato, cientes dos erros que isso possa acarretar”, acrescentou o especialista.

O terceiro dia retomou o tema da “arte artificial” com uma apresentação por Mariana Chinellato Ferreira, da Universidade de Coimbra, sobre a possibilidade de gerar poemas com inspiração em “palavras-chave”, como, por exemplo, a plataforma PoeTryMe. Segundo a investigadora, softwares semelhantes poderão ser desenvolvidos de uma maneira que consigam ser tão criativos que se tornam indistinguíveis de textos escritos por humanos.

A seguir, Fidel Cacheda, da Universidade da Corunha, apresentou o trabalho desenvolvido em conjunto com Raul Santoveña e Victor Carneiro sobre a ética e a segurança na era da Internet das Coisas (IoT). À medida que os instrumentos que utilizamos se tornam mais personalizáveis e interativos (o nosso frigorífico poderá vir a ter um inventário automático e enviar SMS quando for preciso comprar alguma coisa), facilmente se geram bases de dados pelas empresas que criam estes produtos que podem constituir uma invasão da nossa privacidade.

Na sessão de perguntas, foram levantadas questões sobre quanta informação empresas como a Google e o Facebook já possuem sobre os seus utilizadores. Além da informação cedida diretamente, há dados inferidos através dos seus interesses pessoais e do conjunto de amigos. É esperado que a situação intensifique e que seja necessária mais transparência por parte das empresas sobre o quanto pode ser descoberto. Pode até haver necessidade de criar uma instituição pública que proteja o direito à privacidade do consumidor.

Ainda de manhã, foram cobertos os tópicos de como o digital pode ser distinguido do analógico, e de como essa distinção é importante na ciência cognitiva e na compreensão de processos computacionais (por Brandt van der Gaast, da Universidade de Twente) e a perspetiva humana do papel da IA na sociedade, explorada em filmes (Elsa Rodrigues, da Universidade de Coimbra).

Foto: Pexels
Foto: Pexels

Após o almoço, o tópico da privacidade voltou a surgir. Jamie Day, da Queen’s University Belfast, defendeu que o conceito de privacidade tal como foi criado não se provou suficiente para lidar com os avanços tecnológicos mais recentes, e que deviam ser reformulados. Partindo dos interesses fundamentais que inspiram este conceito (liberdade, autonomia, respeito, dignidade, entre outros), Jamie defende que as ideias de informação pessoal (“personal data”) e da nossa capacidade de ser observados (“personal observability”) devem ser reformulados de uma forma mais abstrata, que os permitam ser analisados caso a caso.

Judite Zamith-Cruz, da Universidade do Minho, falou em geral sobre o futuro do transhumanismo (a aplicação da tecnologia na melhoria das capacidades humanas) e como se organizará a nossa sociedade no futuro. Gwenaël Laurent, da Universidade Católica de Louvain, explorou a distinção entre o “natural” e o “artificial”, e o “real” e o “virtual”, demonstrando que estas dicotomias não se sustentam quando estudamos as fronteiras dos conceitos. Utilizando noções empíricas e fundamentos ontológicos, Gwenäel defende que estas distinções não são fundamentais, e que “artificial” e “virtual” podem ser vistos como extensões do “natural” e “real”.

“The Frame Problem”: Distinguir o que é relevante para executar uma ação

Já perto do final da conferência, Katie Rivers da Georgia State University explorou o “Problema do Enquadramento” (“The Frame Problem”) no desenvolvimento de uma inteligência artificial capaz de navegar um ambiente, especificamente a capacidade de um agente identificar o que é relevante ou não para uma dada tarefa. A título de exemplo, para levantar uma caixa não é necessário e relevante, em geral, a cor da caixa. Na apresentação, Rivers explorou a proposta de uma teoria chamada “Global Workspace Theory” que tenta resolver o problema, mas não é capaz de explicar o fenómeno e propõe novas hipótese para a resolução do problema.

Manuel Cebral, da Universidade de Santiago de Compostela, apresentou o que considera ser uma extensão teórica e metodológica ao campo da Ciência Computacional, baseada na filosofia de Gilles Deleuze. Explorando os conceitos de Data Mining e Big Data, o investigador evidenciou a relação que estes conceitos têm com a filosofia deleuzina, e o que esta filosofia ainda poderia contribuir.

O último “keynote speaker” foi Luciano Floridi, professor de Filosofia e Ética da Informação da Universidade de Oxford, que discutiu o conceito filosófico de “Esperança”, propondo uma definição e demonstrando como podemos ser motivados ou manipulados de forma sistemática. A partir de uma analogia entre religião e transhumanismo, Floridi defendeu que Deus “ou é absolutamente impossível, ou necessariamente existente”. A partir deste conceito justificou a importância de uma sólida filosofia da “Esperança” para guiar o comportamento humano para uma compreensão mais espiritual, tolerante, sustentável e essencialmente preferível da vida humana.

A conferência encerrou com um “balanço positivo” por parte da organização. A junção de disciplinas distintas e a aplicação da inteligência artificial a várias áreas foram os principais assuntos do evento. Foi a última iniciativa da Associação Episteme & Logos em 2017.